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O incesto nas Escrituras

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Muitos se assustam ao se depararem com vários casos de incesto (união sexual entre parentes, que é condenada pela lei, pela moral ou pela religião) nas escrituras e ficam com dúvidas em relação à vontade de Deus para nós. Deus condena o incesto? É um pecado? Se é, por que muitos cometeram sem que Deus se manifestasse em relação a isso? Então vamos refletir brevemente sobre o assunto.

Definindo o ponto de partida

Em primeiro lugar, como sempre falo, temos que ter em mente que a base interpretativa da bíblia e da vida é Jesus Cristo, pois Ele é o Verbo, a Palavra de Deus encarnada. Sendo assim, Ele (que não pecou) cumpriu em Sua vida terrena a vontade perfeita do Pai. Em outras palavras, olhando para Jesus, veremos a Palavra de Deus, que deve ser aplicada em nossa vida. Partindo deste princípio, saberemos que tudo o que estiver em conformidade com os ensinos de Cristo, devemos seguir, pois é o ideal divino e o que não estiver, devemos rejeitar, não importando quem tenha dito.

Casos de incesto na bíblia:

Adão e Eva (e descendentes)

Não irei aqui discutir questões teológicas polêmicas (nem questões biológicas), como a literalidade ou não deste relato encontrado no livro de Gênesis. A questão é: sendo Eva tirada da costela de Adão, ela tinha material genético dele, sendo que de certa forma, seria quase que uma “clone” ou até mesmo uma “irmã” do primeiro humano. Ou seja, a relação entre os dois teria sido consanguínea. O mesmo vale para seus primeiros descendentes, pois se eram os primeiros habitantes da Terra, para aumentar a população, a procriação passou por inúmeros casos de incesto, como relações entre irmãos e outros parentes próximos.

Abraão e Sara (Gênesis 20)

Eram meio-irmãos, ou seja, tinham o mesmo pai.

Naor e Milca (Gênesis 11)

Não foi apenas Abraão que cometeu incesto, mas também seu irmão Naor, que se casou com a sobrinha. Isso mesmo, após a morte de um de seus irmãos, Harã, Naor a tomou como esposa.

Ló e filhas (Gênesis 19)

Parece que era “coisa de família”, certo? Brincadeiras à parte, Ló era sobrinho de Abraão, filho de Harã (sim, aquele cuja esposa casou-se com seu irmão Naor) e irmão de Milca. Envolveu-se em mais um caso de incesto da família. Após a destruição de Sodoma e Gomorra, as filhas de Ló fizeram com que o pai ficasse embriagado e se relacionaram sexualmente com ele, engravidando ambas (que originarão Moabe e Bem-Ami).

Anrão e Joquebede (Êxodo 6)

Anrão casou-se com Joquebede, que era sua tia e juntos tiveram filhos, sendo um deles, nada menos que Moisés!

Tamar e Judá (Gênesis 38)

Tamar vestiu-se de prostituta e “enganou” seu sogro Judá (que não a reconheceu), engravidando dele. Seu desejo era conquistar uma descendência.

Amnon e Tamar (II Samuel 13)

Eles eram meio-irmãos, filhos de Davi. Amnon fingiu-se de doente e estuprou Tamar, que era virgem.

Proibição ao incesto nas escrituras

Se lermos os primeiros livros da bíblia atentamente, veremos que a proibição por parte de Deus em relação ao incesto ocorre apenas em Levítico 18, na lei dada a Moisés, ou seja, depois de Abraão, por exemplo.

A partir disso destacam-se duas linhas interpretativas: a primeira afirma que antes da Lei os casamentos consanguíneos não desagradavam a Deus e passaram a ser pecado apenas com o estabelecimento oficial da Lei mosaica; a segunda diz que o incesto sempre foi errado, mesmo Deus não deixando isso explícito ao homem. Particularmente acredito que jamais tenha sido o ideal de Deus, pois Ele nunca tinha proibido oficialmente o assassinato, mas Caim “pecou seriamente” matando Abel. Ou seja, para que consideremos o incesto errado, não precisaria de uma lista de regras dada por Deus aos homens. Mas tomando o relato do Gênesis como literal e pensando nos descendentes de Adão e Eva, que outra escolha teriam? Partindo do princípio que existiam poucos humanos na Terra, para procriar, deveria haver relações sexuais entre parentes próximos.

Posto isso, fato é que em Levítico vemos claramente na lei dada aos israelitas a proibição de “casamento” de uma pessoa com pais, irmãos, tios, cunhadas, netos, noras e enteadas. Quanto a primos, não há nenhuma restrição.

O incesto na atualidade

E quanto a nós? Podemos nos envolver em relacionamentos incestuosos ou seria isso abominação a Deus? Aí a questão é bem complexa, pois envolve vários pontos. Porém, o principal e determinante é: o que aprendemos com Jesus? Na verdade, a única referência direta ao incesto que me vem à mente no novo testamento é I Coríntios 5, em que Paulo chega a dizer para entregar o corpo do homem que mantinha relações sexuais com sua madrasta a Satanás, para que seu espírito fosse salvo. Porém, a dureza das palavras do apóstolo são devidas, ao meu ver, não apenas ao fato de se tratar de um caso de incesto, mas também por ter se tornado uma perversão sexual pública, que estava escandalizando muita gente (e Paulo era declaradamente contra escandalizar os irmãos de fé). Baseando apenas nisso, teríamos mais argumentos para condenar o incesto.

Outra questão que deve ser considerada é a questão biológica. É comprovado que relações consanguíneas aumentam a probabilidade de surgimento de várias doenças genéticas, além de outros distúrbios. É claro que não é algo que acontece sempre, mas os riscos aumentam nestes casos. Portanto, do ponto de vista médico, é aconselhável que, se possível, os descendentes se originem de pais sem parentesco próximo.

Do ponto de vista jurídico brasileiro, nenhum tipo de incesto é passível de ação penal. Ou seja, não é crime nenhum tipo de relacionamento entre familiares, independentemente do parentesco. Porém, é impossível oficializar uma união estável entre parentes próximos, como entre pai e filha, por exemplo. Aí entra a última questão: a moral, que varia de acordo com a sociedade, a cultura e a época. No Brasil atual, por exemplo, esse tipo de relacionamento é condenado pela grande maioria das pessoas, sendo, portanto, uma conduta raramente aceita (embora, claro, a sociedade não deva ser um parâmetro absoluto para estabelecermos o que é certo ou errado).

É mais complicado do que parece…

Algo que poucos tem consciência é que o incesto tem um significado mais subjetivo do que biológico. Em outras palavras, até mesmo as proibições feitas em Levítico poderiam ter este sentido. Eu explico: Qual seria a razão de ser condenável uma pessoa se casar com um irmão, por exemplo? Embora tenha comentado acima que há uma ligeira elevação no risco de algumas doenças genéticas, quase certamente não foi esse o motivo da proibição feita pela lei de Moisés. A questão provável é a psicológica. Não parece ser saudável para um indivíduo e para seus familiares um relacionamento incestuoso. Sabendo que a família é um dos pilares a ser mantido em nossa vida, é compreensível essa normatização.

Vamos analisar um exemplo? Um casal de irmãos são tirados da mãe quando crianças e cada um cresce em uma família diferente. Eles nunca se conhecerem. Após 20 anos se encontram e surge uma paixão entre eles. Namoram, casam, tem filhos e depois de algum tempo descobrem que são irmãos. Será que pecaram? Cometeram incesto? Ao meu ver, diria sem nenhuma dúvida que não. Isso mesmo! Embora geneticamente fossem irmãos, psicologicamente e familiarmente falando, nunca tiveram parentesco. O isolamento ocorrido por tanto tempo impediu que tivessem um vínculo familiar prévio e, consequentemente, incestuoso. Portanto, do ponto de vista familiar, não vejo nenhum problema, pois em seu contexto e mentalidade, nunca foram irmãos.

Para deixar mais claro, fica um outro exemplo: um casal tem um filho (ainda criança) e adota uma garotinha também da mesma idade. Eles crescem juntos, criados como irmãos, em um mesmo ambiente, recebendo o mesmo amor dos pais. Quando estiverem moços, um eventual relacionamento sexual/amoroso entre eles poderia sim ser considerado psicologicamente incesto, pois embora não haja nenhum parentesco genético, há um laço familiar estabelecido. Esse tipo de relação poderia desencadear vários processos psicológicos potencialmente danosos e a família poderia se tornar instável. Podemos dizer que onde não há amor sincero, livre de traumas, de medo, de culpa e de danos familiares irresponsáveis, não há uma aprovação de Deus. Portanto, o incesto é muito mais “prático”, do que “teórico”, sem um determinismo genético. Pelo menos é assim que vejo.

Conclusão

Nos relatos bíblicos não podemos julgar as pessoas envolvidas nesses casos de incesto, pois não conhecemos o coração de nenhuma delas. Fato é que, quando lemos nos evangelhos a genealogia de Jesus, percebemos que nessa descrição há muitos homens e mulheres pecadores, sejam adúlteros, prostitutas ou assassinos. E o que aprendemos disso? Que Jesus veio ao mundo em meio a uma ascendência imperfeita e transgressora da vontade de Deus, porém mesmo em meio a tantos erros, Ele foi perfeito e santo. Ou seja, ninguém de nós é capaz de entender os desígnios de Deus. Se Ele resolveu que o Salvador do mundo nasceria de uma ascendência incestuosa, quem sou eu para questioná-lo ou abominar cegamente essa prática? Coloco Jesus como parâmetro, buscando seguir seus ideais inclusive em termos de relacionamento e passo a acolher e a ajudar, ao invés de julgar e de condenar.

 Autor: Wésley de Sousa Câmara
Atualizado em 06/2018

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