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Os chifres de Moisés

     “Moisés, após receber as tábuas dos dez mandamentos, apareceu com chifres, uma clara evidência de que Deus também tem chifres”. Este é um argumento usado por alguns defensores de religiões neopagãs, que supostamente “acreditam” em parte da bíblia e que utilizam seus pseudoconhecimentos das escrituras para defender tal ideia.  Neste texto não pretendo discutir a “aparência” de Deus e muito menos essas religiões; apenas refletirei sobre os cornos ou chifres de Moisés, que foram retratados em uma famosa escultura de Michelangelo. 
     O texto bíblico que originou toda essa questão está no capítulo 34 de Êxodo (versículos 29 a 35). Em praticamente todas as traduções atuais observamos no versículo 29: “… Moisés não sabia que a pele do seu rosto resplandecia…” Porém, alguns questionam essa tradução, afirmando que o rosto resplandecente de Moisés foi assim traduzido por motivos de preconceito e para não comprometer a fé cristã. O correto, segundo eles, seria: “… Moisés não sabia que seu rosto tinha chifres…” Talvez o leitor pense que é uma discussão simples de terminar, bastando procurar o texto base para a tradução, certo? Porém, o problema é justamente esse!
     Na “Bíblia de Jerusalém” (que também traduz o trecho como “rosto resplandecente”) há o seguinte comentário no rodapé da página: “Os vv 29 a 35 são de origem incerta. Narram uma tradição a respeito do resplendor do rosto de Moisés…derivado de qeren…a tradução literal da Vulgata traz: ‘o seu rosto tinha chifres’…” Simplificando ao extremo, Vulgata é a TRADUÇÃO dos textos bíblicos para o latim, realizada no século IV por padres da Igreja Católica (São Jerônimo). É baseada na Septuaginta (uma versão muito mais antiga, que é a tradução para o grego, a partir dos originais hebraicos, cerca de 500 anos mais velha). Ou seja, a Vulgata (que serviu de base para inúmeras traduções posteriores) não é original, é a tradução da tradução… Logo, não se pode garantir que a Vulgata possui os termos originais ou corretos! João Ferreira de Almeida, por exemplo, conhecia diversas línguas e usou para sua tradução exemplares em espanhol, em francês, em holandês, a própria Vulgata e o Texto Receptus (ou Bizantino); a Bíblia de Jerusalém é baseada no Texto Crítico. E qual a semelhança entre essas duas versões? Ambas dizem que Moisés tinha o rosto resplandecente e não, com chifres!
     O que provavelmente aconteceu então? Segundo a Dra Cláudia Andréa Prata Ferreira* (professora doutora do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em História Comparada – PPGHC – do Instituto de História da UFRJ), a Vulgata confundiu duas palavras parecidas na grafia, trocando uma, que significa “resplendor”, pela outra, que significa “chifres”. As duas palavras hebraicas (o idioma original do velho testamento) parecidas são: “qaran” e “queren”, ambas com raízes “q r n”. O erro causou tanto impacto que Michelangelo, lendo a Vulgata, fez a famosa escultura de Moisés com chifres.
     Portanto, fica claro: Os chifres de Moisés são frutos de um equívoco de tradução! Não houve preconceito nem má intenção (houve correção!) ao traduzir como “rosto resplandecente”, tanto é que a “Nova Vulgata” já corrige esse erro. O rosto de Moisés brilhava sim, mas chifres? Deixe isso para os touros!

Autor: Wésley de Sousa Câmara

Referências:
Bíblia Almeida Corrigida Fiel
Bíblia de Jerusalém
Nova Vulgata
* http://linguahebraica.blogspot.com/2008/09/hebraico-raiz-da-palavra-querenqaran.html –
Consultado dia 11/10/2011.

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